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21/02/2018

Você já imaginou uma Intervenção Federal no Rio de Janeiro levada a cabo por gente inteligente? Já imaginou um governo inteligente fazendo uma intervenção válida? Como seria?

Centenas de professores ganhando bem, ao invés de soldados. Todos eles carregariam livros, ao invés de fuzis. Centenas de médicos, bem remunerados, ao invés de blindados do Exército. Seringas de vacinação e atenção ao pré-natal, ao invés de granadas e socos na porta. A polícia poderia vir junto? Até poderia, mas ela traria também pessoas capazes de montar um projeto de urbanização que trouxesse empregos, fazendo o tráfico ser uma opção desinteressante diante da opção pela vida honesta. A polícia, bem paga, bem treinada, não corrupta, seria então a guardiã do local, e nunca mão de obra para a milícia assassina, que coloca toda a favela contra o Estado.
Essa seria a Intervenção de 30 anos atrás. Mas poderia ser também a de agora. Tudo isso seria facilmente feito se as pessoas que governaram e governam o Rio não fossem já, também elas, bandidos. Não, não quero santos. Pode ser feita uma Intervenção Federal até com Temer na Presidência – mas teria de ser algo inteligente. A medida da Intervenção atual é bolsonaresca, é a violência pela violência. Ora, a resposta dos bandidos de rua (sem colarinho branco) ao bolsonarismo, que é sinônimo de burrice, foi rápida: mataram um sargento a tiros, no chão do asfalto, após luta corporal. Viram que era sargento, apesar dele estar sem uniforme. Agora, os bandidos vão caçar pessoas do Exército como têm caçado os policiais. Tanque na rua não resolve nada! A sensação de segurança é passageira, e os bandidos vão se espalhar para se reorganizar depois. Afinal, o tráfico e sua associação às milícias que supostamente o combateriam são, agora, a própria economia do morro. Aliás, já faz tempo que é assim. Não é algo conjuntural, é estrutura do Rio de Janeiro.

Tirar o crime organizado da jogada é fazê-lo se desorganizar. Ele se desorganiza se suas finanças se desorganizam. E as finanças do crime organizado não estão debaixo de colchões, mas em bancos. E as contas bancárias de políticos são o local chave. Mesmo com a existência de malas de dinheiro arredias a bancos, o sistema bancário ainda é o lugar preferido do trâmite do dinheiro, é ele que dá o caráter de organização ao crime organizado. Achar que todo bandido anda de chinelo, sem camisa e bermuda, exibindo uma barriga nada sexy, é não entender nada do que ocorre com o tráfico e com as milícias atuais. Achar que Rubinho e Sabiá realmente existem sem um conluio com políticos e braços do Estado é algo de quem toma a novela mais a sério do que ela permite.

Os generais sabem muito bem que o Exército no morro e nas favelas, sem ação social efetiva ao lado, é apenas uma chance para desmoralizar de vez as Forças Armadas. Mas eles mesmos, os generais, não sabem o que fazer no paralelo. Por uma razão simples: a maior parte dos estudiosos da Universidade, que lida com as pesquisas sobre criminalidade e violência, não é ouvida pelos governantes ou pelos militares. Pois tais pessoas, os que estudam o assunto, iriam falar em Intervenção Federal inteligente. E isso passa pela ação social e pelo sufocamento das finanças do tráfico. E o que as Forças Armadas entende por “Inteligência” não ultrapassa o nível infantil do mapeamento de favela para localizar quadrilhas. A população (fora das favelas) até gosta disso, pois vê demais filme de mocinho e bandido e acredita que as grandes cidades americanas que colocaram o crime para correr o fizeram por meio da atuação de policiais que pulam de prédio em prédio, como super-heróis.

Estamos diante do esperado show do Capitão Nascimento, aquele do filme que, insisto, foi um tiro pela culatra – fez a população gostar mais da violência do Wagner Moura em estilo machão do que do drama do seu personagem como quem participou da ilegalidade e virou vítima da violência. Padilha é um cineasta inteligente, mas errou o alvo, e acertou na bilheteria.

A bilheteria boa de Tropa de Elite fez Temer optar pelo bolsonarismo sem Bolsonaro, ou seja, pela burrice sem o burro. Mas a burrice sem o burro ainda é burrice.

Paulo Ghiraldelli Jr, 60, filósofo.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row]